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Ayahuasca e dependência química: o que as pesquisas indicam e o que esperar

Ayahuasca e dependência química: o que as pesquisas indicam e o que esperar

A dependência química é uma das condições de saúde que mais resistem aos tratamentos disponíveis. As taxas de recaída para álcool, cocaína, crack e opioides são altas mesmo após tratamentos bem conduzidos. É nesse contexto de busca por abordagens complementares que o interesse no uso de ayahuasca no tratamento de dependência ganhou espaço na literatura científica.

Este texto apresenta o que as pesquisas indicam, como o processo funciona na prática e quais são os limites do que se sabe hoje.

O que as pesquisas têm mostrado

Os estudos mais relevantes vêm do Brasil e do Canadá. No Brasil, pesquisadores do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas de Porto Alegre conduziram trabalhos observacionais com pessoas em recuperação de dependência de álcool e outras substâncias que participaram de rituais em contexto religioso ayahuasqueiro, principalmente na União do Vegetal.

Os resultados mostraram, de forma consistente, redução no consumo de álcool e outras substâncias nos meses seguintes à participação nos rituais. Os participantes relataram mudanças na relação com a substância da qual dependiam: menor compulsão, maior clareza sobre os contextos em que o uso ocorria e sobre as emoções que o precediam.

No Canadá, pesquisadores da Universidade da British Columbia conduzem desde 2012 o projeto Takiwasi, que avalia o uso de ayahuasca em comunidades de recuperação no Peru. Os dados publicados até agora mostram padrões semelhantes aos brasileiros: redução de uso, melhora de bem-estar subjetivo e, em alguns casos, abstinência sustentada.

Um estudo observacional publicado em 2019 no Journal of Psychoactive Drugs analisou 70 participantes com histórico de dependência de álcool, tabaco e cocaína que participaram de retiros de ayahuasca. Seis meses após os retiros, a maioria relatou redução significativa no uso. Os resultados foram mais pronunciados para álcool e tabaco do que para cocaína.

Como a ayahuasca pode atuar no contexto de dependência

A dependência química envolve pelo menos três dimensões que precisam ser trabalhadas: a fisiológica, a psicológica e a relacional ou social.

A dimensão fisiológica, o craving e a síndrome de abstinência, não é o foco principal da ayahuasca. Ela não funciona como substituto farmacológico nem como bloqueador de receptores. O que ela pode fazer é atuar sobre as dimensões psicológica e, indiretamente, relacional.

A dimensão psicológica da dependência envolve padrões emocionais e comportamentais que precedem e seguem o uso da substância: a ansiedade que antecede o consumo, a dificuldade de tolerar estados internos desconfortáveis sem recorrer à substância, as crenças sobre si mesmo que o uso reforça. A força amplia esses padrões, tornando-os visíveis com uma clareza que o estado habitual raramente permite.

Muitos buscadores com histórico de dependência relatam que durante o ritual conseguiram observar, pela primeira vez com clareza, o que estava por trás do uso: o que buscavam aliviar, o que tentavam evitar sentir, o que a substância substituía ou anestesiava. Esse nível de clareza, quando acompanhado de suporte adequado para integração, pode criar condições para uma relação diferente com os gatilhos do uso.

O papel da integração no contexto de dependência

Para pessoas com histórico de dependência, a integração após o ritual tem peso ainda maior do que para buscadores sem esse histórico.

O período de vulnerabilidade que se segue a qualquer experiência intensa, seja ela positiva ou difícil, é também um período de risco para o uso de substâncias. O buscador em recuperação precisa ter suporte claro nos dias seguintes ao ritual: saber com quem falar, ter acesso a acompanhamento terapêutico e ter um plano para o caso de o craving se intensificar durante o processo de integração.

Rituais conduzidos de forma responsável com pessoas em recuperação incluem essa avaliação como parte do processo. A triagem não serve apenas para identificar contraindicações farmacológicas. Ela serve para avaliar o momento de vida do buscador e o suporte que ele tem disponível para o período que se segue.

O que a ayahuasca não é no contexto de dependência

Ayahuasca não é tratamento para dependência química. Não existe, até o momento, protocolo clinicamente validado que a posicione como intervenção médica para essa indicação.

O que existe é evidência observacional e resultados de estudos iniciais que indicam que, em contexto adequado, ela pode ser um componente útil em um processo mais amplo de recuperação. Isso é diferente de ser um tratamento.

A distinção importa porque cria expectativas realistas. Uma pessoa que chega ao ritual esperando que a força "cure" a dependência tende a se frustrar quando o processo é mais complexo do que isso, ou a atribuir ao ritual um poder que ele não tem isoladamente.

A recuperação de dependência é um processo longo que envolve múltiplos suportes ao mesmo tempo: acompanhamento médico, psicoterapia, suporte social e, em muitos casos, grupos de apoio. A ayahuasca pode entrar nesse conjunto como um recurso que amplia o acesso a material psicológico que outros recursos alcançam com mais dificuldade. Não como substituto de nenhum deles.

Contraindicações específicas para pessoas em recuperação

Além das contraindicações gerais descritas em outros textos, pessoas em recuperação precisam atenção a alguns pontos específicos.

O uso recente de qualquer substância psicoativa, incluindo álcool, é contraindicação para participar de um ritual. O intervalo mínimo recomendado varia conforme a substância, mas a triagem precisa mapear o histórico recente com precisão.

Pessoas em uso de naltrexona, medicamento utilizado no tratamento de dependência de álcool e opioides, precisam avaliar com o médico responsável a possibilidade de suspensão temporária antes do ritual. A naltrexona bloqueia receptores opioides que podem estar envolvidos nos efeitos da ayahuasca.

Pessoas com histórico de dependência de benzodiazepínicos precisam de avaliação cuidadosa. A retirada abrupta desse tipo de medicamento pode ser perigosa, e a interação com a ayahuasca merece avaliação individual.

O que o processo oferece de concreto

Para quem está em processo de recuperação e considera participar de um ritual, o que o trabalho com ayahuasca pode oferecer de concreto é acesso a um nível de clareza sobre os próprios padrões que raramente se alcança por outros meios.

Esse acesso, por si só, não resolve nada. Mas cria uma base para um trabalho diferente: mais direto, mais informado sobre as origens do que se busca aliviar, e com mais capacidade de tolerar o que antes era intolerável sem a substância.

É um ponto de partida, não um ponto de chegada.

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